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Uma pancada na cabeça, que pode ter conseqüências mais ou menos graves de acordo com a intensidade da batida, é o chamado traumatismo craniano, ocorrência muitas vezes freqüente em acidentes de trânsito. Hoje, exames sofisticados revelam de imediato o quadro clínico do paciente, indicando quando há ou não necessidade de uma intervenção cirúrgica. E o traumatismo craniano deixa de ser um bicho-de-sete-cabeças assustador.Por definição, traumatismo craniano é qualquer pancada na cabeça. Na maioria das vezes, ela envolve também o cérebro, denomina-se nos meios médicos, traumatismo cranioencefálico. Como o encéfalo (cérebro) flutua num líquido existente no interior do crânio - o líquido cefalorraquidiano -, uma de suas funções é amortecer o choque de pancadas na cabeça.
O problema não é apenas o local da batida, e sim a força do impacto. Quando há um traumatismo cranioencefálico, o cérebro se desloca dentro do crânio em direção ao lugar da pancada e, embora muitas vezes não haja fratura, pode ocorrer um deslocamento cerebral (o cérebro pode se deslocar e se chocar contra a caixa craniana). Isso pode provocar uma ruptura de algum vaso dentro da cabeça.Apesar de ser gerado por um trauma, existem circunstâncias que classificam o traumatismo craniano como aceleração e desaceleração (quando envolve o fator velocidade), lesão perfurante ou penetrante (acidentes com tiro ou facada) e trauma direto (uma martelada na cabeça). Existem também graduações: é denominado menor quando não faz o paciente perder a conciência na hora da pancada, e maior nos casos em que há desmaio, perda de conciência e disfunção cerebral momentânea. «Esse último quadro pode levar ao coma profundo e até mesmo à morte, se não for tratado a tempo», esclarece o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, diretor do Instituto de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia.Curiosamente, o caso dito menor, de mais fácil resolução, é também o mais perigoso, pois o indivíduo parece superficialmente bem, está consciente, volta para casa falando e andando sem ajuda. Muitas vezes, porém, sem que se perceba, uma veia rompeu-se dentro do crânio e sangra, formando um coágulo que pode crescer e comprimir, aos poucos, o cérebro. «Justamente por isso é que antigamente se dizia que não se podia dormir logo após uma pancada na cabeça, para que o sono não fosse confundido com o estado de coma», explica o neurocirurgião.Os primeiro sintomas de que alguma coisa esta errada são os demaios, tonteiras, dores de cabeça fortes e constantes, sonolência, vômitos, dificuldades de marcha e de raciocínio. Quanto mais jovem for o paciente, menores são as chanches de se formar um coágulo cerebral tardio depois de uma pancada.As quedas acidentais de crianças do berço ou da bicicleta, em 99% das vezes não apresentam problema algum. No caso de acidentes com idosos, no entanto, como o cérebro é mais atrófico e enrugado, há mais espaço para um coágulo se acomode e cresça sem se manifestar indícios da sua existência.«Não são raros os casos em que pessoas de meia-idade procuram o especialista dois ou três meses depois de um trauma na cabeça. Muitas delas nem se lembra de haver sofrido qualquer pancada, embora apresentem todos os sintomas de que houve um sangramento interno que se transformou num hematoma crônico», conta ele.O cérebro e a medula espinhal são revestidos por três camadas chamadas meninges. A mais interna é chamada pia-máter. A intermediária é a aracnóide e está separada da pia-máter pelo líquido céfalorraquidiano. A camada superficial é a dura-máter, que envolve a aracnóide e adere aos ossos.O hematoma subdural, portanto é uma complicação tardia do traumatismo, em que o sangue se acumula embaixo da meninge (subdural) ou sobre ela(extradural). De um modo geral, as pessoas costumam confundir também denominações como contusão e concussão.Concussão é quando existem indícios de sofrimento cerebral, ainda que momentâneo, através de um rápido desmaio. Contusão é quando há uma lesão orgânica grave no cérebro, com sangramento.Consequências do trauma: em todos os tipos de acidentes que envolvem a cabeça, existe a possibilidade de um coma. Nos casos mais graves, o paciente pode permanecer nesse estado por semanas seguidas. As seqüelas são imprevisíveis e ocorrem de acordo com as áreas afetadas e a intensidade do choque. A mais freqüente delas é a perda de memória (amnésia pós-traumática), quando o indivíduo não se lembra de nada que aconteceu um pouco antes da hora do acidente.Depois de recuperada, a pessoa ainda pode ficar com dificuldade de memória recente, sem conseguir lembrar dos fatos ocorridos depois do acidente, além da possibilidade de haver lesões motoras, visuais, etc. Ou seja, num acidente de carro ou tombo, mesmo com tudo aparentemente normal, o procedimento correto é submeter o paciente a um exame de tomografia computadorizada - e não uma radiografia, que revela apenas se houve fratura óssea - para verificar uma possível formação de coágulo.«Quando não houve perda de consciência e a pancada foi leve, não há com o que preocupar-se. Mas, em outros casos, é preciso sempre procurar um pronto socorro para uma investigação radiológica, eliminando de vez todas as dúvidas», alerta o médico. Se houver necessidade de intervenção cirúrgica, as posibilidades de curas são bastante boas, mas o prognóstico vai depender principalmente da fase em que a pessoa chegou ao hospital para ser medicada. E nesses casos, o quanto antes, melhor.